O BRASIL VAI AS RUAS


As vozes de mais de 1 milhão de pessoas nas ruas de todo o País, no domingo (15), pressionam o governo da presidente Dilma Rousseff (PT) a uma mudança de rumos.
Analistas ouvidos afirmam que o número de brasileiros nas manifestações impressionou e mostrou a força do movimento de oposição. O ato reforçou a insatisfação com a atual situação política e econômica do País e a corrupção. Para eles, o governo terá trabalho para reverter esse quadro e deverá mostrar reação rápida com uma agenda positiva para o Brasil.Os atos também colocariam o governo em uma situação de fragilidade diante do Congresso. A relação da gestão Dilma com os parlamentares não é amistosa, nem mesmo com os que compõem a base de apoio.

Votações recentes importantes na Câmara dos Deputados e no Senado já indicaram que a articulação política do governo está desgastada. As manifestações populares dão força para a oposição e a administração terá de agir para buscar sustentação na base aliada.
Na opinião do professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Valeriano Mendes Ferreira Costa, os protestos de ontem pressionam o governo.
“Ele terá que apresentar uma agenda positiva para o Brasil. Também será necessário, daqui em diante, ver a dinâmica das ruas e se o movimento terá continuidade”, avaliou. Costa salientou que Dilma precisará mostrar força e apresentar medidas que mobilizem ao menos seu eleitorado em favor da administração.
“O governo precisa reagir para não cair em um quadro de paralisia e também dialogar com o Congresso. Se a situação degringolar, existe o risco de esvaziamento da base e um movimento de impeachment pode, realmente, ganhar força”, analisou.O professor disse, ainda, que a sociedade precisa definir uma pauta concreta e cobrar todos os agentes políticos.

Elite

A professora do Departamento de Antropologia, Política e Filosofia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara Maria Teresa Miceli Kerbauy afirmou que o número de cidadãos que saíram às ruas ontem superou as expectativas dos organizadores e também do governo.

“As manifestações mostraram fôlego e pressionaram o governo da presidente Dilma Rousseff”, disse. A especialista observou que a tranquilidade foi um traço que marcou os atos. “O cenário foi bem diferente do de 2013, quando eles foram marcados pela violência”, comentou.
Maria Teresa frisou que o fato de haver mais de 1 milhão de pessoas nas ruas apenas em São Paulo mostrou que não é só a elite, como os apoiadores de Dilma ventilam na disputa política, que está descontente com a situação atual.
“Havia pessoas de diferentes classes sociais criticando o governo e pedindo mudanças”, ressaltou. Ela salientou que o governo precisa parar de tentar colar a pecha de “manifestação da elite” nesse movimento e tomar ações concretas para reverter o quadro econômico e político.
“O governo deve parar de falar, a população quer ação. Todos os cidadãos estão sentindo no bolso o impacto da crise econômica e também da política”, falou.
Para a professora, a manifestação fragiliza ainda mais uma administração que vive hoje uma relação complicada com o Congresso. Segundo a especialista, a presidente Dilma deverá tomar medidas urgentes que, realmente, promovam mudanças no governo e efeito nos quadros econômico e político.
“Uma dessas medidas pode ser a mudança ministerial. Há uma pressão da sociedade que exige transformações e espera por uma resposta do governo. Os protestos mostram que há uma insatisfação muito grande”, ressaltou.
Ato simbólico 
Um ato que nasceu virtual, tornou-se físico e configurou-se simbólico. Em síntese, “o basta” que se viu ontem no País pode assim ser definido, segundo Roberto Romano, professor de ética da Unicamp. O especialista apontou que o caminho que a nação tomou foi pela saída do torpor.
“Sobretudo com as novas formas de comunicação, há uma população informada e com condições de se mobilizar. Vale ressaltar que as manifestações populares fazem parte da história do País. Podemos citar as mobilizações decorrentes da morte de Getúlio Vargas, a favor da resistência ao Golpe Militar, pelo fim da ditadura, pela democracia e muitas outras”, pontuou.
Paralelamente a essas manifestações anteriores, Romano lembrou que houve uma interiorização das urbes no País, marcadamente após a década de 1960 — ou seja, o aumento do número de cidades e, consequentemente, a constituição de novas metrópoles, hoje mobilizadas.
“Contudo, o Estado brasileiro, apesar de seu gigantismo, ainda não consegue organizar suas políticas públicas. Cerca de 60% dos municípios não têm sequer saneamento básico. Isso faz com que as populações, que não estão mais esparsas e têm acesso aos meios de comunicação, apresentem esse fenômeno inédito, essa radicalização cada vez maior em grandes massas”, situou.
A aprovação da Lei da Ficha Limpa e a reprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 37, por exemplo, foram reflexos da mobilização popular.
“Há massa quando preteja de gente, quando o espaço físico é todo tomado. As manifestações virtuais independem do espaço físico mas, quando não se traduzem em ocupação das ruas, perdem a possibilidade da conquista de modificações estruturais”, conjecturou.
O #vemprarua, nesse sentido, assenta a compreensão das massas de que a manifestação popular tem força. “Tivemos uma passagem do virtual para o simbólico e a passagem para uma mudança ainda maior”.
Romano lembrou, ainda, que a configuração das instituições públicas, tal como há hoje no Brasil, tende a se modificar pouquíssimo se houver um impeachment.
“Temos um sistema presidencialista, quando temos uma constituição em vigor preparada para um governo parlamentarista. Houve um plebiscito cujo resultado foi favorável ao presidencialismo. Contudo, no meu entender e de uns poucos, se não houver a convocação de uma assembleia nacional constituinte concertânea com o que é necessário para a nova estrutura física do poder, não haverá mudança e solução da crise nunca.
Haverá uma troca de indivíduos e partidos, mas não uma reforma do Estado brasileiro. Seguirá o imperialismo do Poder Executivo que é pago, quer seja em recursos ou em cargos para os partidos que têm maioria no Congresso, caso do PMDB. O Executivo é refém de alianças e, nesse modelo, não há saída”, definiu.

 

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