O FUTURO DO BRASIL


Seja quem for eleito presidente da República, terá como desafio, a partir de 2015, reorganizar a economia para colocar o país novamente em uma rota de crescimento, sem descontrole da inflação. É consenso entre economistas ouvidos pelo GLOBO que o cenário atual, de estagnação econômica, inflação no teto da meta, déficit fiscal e nas contas externas, e desconfiança dos agentes econômicos, indica a necessidade de um ajuste logo no começo do novo governo. Recuperar a credibilidade e a confiança na política econômica é apontado pelos especialistas como um desafio imediato. Mas cada um tem a sua receita para atingir o objetivo do crescimento sustentado.

Para recuperar a credibilidade perdida na política fiscal, a fórmula recomendada é um ajuste para equilibrar receitas e despesas e mais transparência nas contas públicas. Com arrecadação em queda e gastos turbinados pelo ano eleitoral, o superávit primário (economia do governo para o pagamento de juros da dívida pública), indicador acompanhado com lupa pelo mercado, não chegará nem perto do prometido pelo governo para manter a dívida estável em relação ao PIB em 2014.

Até agosto, o Tesouro só conseguiu poupar R$ 1,5 bilhão dos R$ 80 bilhões prometidos para o ano e a equipe econômica optou pela chamada contabilidade criativa para fechar as contas, que inclui desde o uso de recursos do Fundo Soberano e antecipação de dividendos de estatais até o atraso de repasses para bancos públicos.

O economista José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do Ibre/FGV, avalia que a situação mais grave da economia está no campo fiscal:

— O que mais incomoda é que os gastos são crescentes e as contas são fechadas às custas de artifícios contábeis.

Para Senna, o mais importante, a partir de 2015, é restabelecer a confiança dos agentes econômicos de forma que o setor produtivo volte a fazer investimentos que estimulem o crescimento da economia. Para conter a inflação, ele recomenda a elevação dos juros e um corte de despesas, medidas que considera inevitáveis logo no primeiro ano de governo. Embora essas ações tenham potencial para derrubar ainda mais o crescimento da economia, ele considera que os problemas que elas poderão resolver é que são hoje responsáveis pela falta de confiança dos empresários:

— O desalento que hoje afeta o setor produtivo está relacionado com esses problemas que precisam ser resolvidos — afirma Senna.

O economista Amir Khair, especialista em finanças públicas, considera que o controle dos gastos públicos para manter as contas equilibradas é crucial nesse processo de recuperação da economia. Mas discorda da corrente de analistas que defende a elevação dos juros para conter a inflação. Khair lembra para a conta de juros tem um peso considerável nas contas públicas — hoje está em torno de 5 % do Produto Interno Bruto ( PIB – conjunto de bens e serviços do país).

— Só se fala em superávit primário, mas para caminhar para um déficit nominal zero e colocar a economia no lugar é necessário um trabalho duplo: melhor resultado primário e a redução das despesas com juros. É preciso caminhar para taxas de juros em linha com a realidade internacional — recomenda.

Ele considera que “a inflação não passa pela porta do BC” e coloca em dúvida a eficácia da política monetária para combater a inflação de serviços, alimentos e preços monitorados, que, somados, representam 80 % do índice.

Já o economista Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda, considera essencial restabelecer o tripé da política macroeconômica: regime de metas de inflação, superávits primários e câmbio flutuante.

— Está claro que a nova matriz macroeconômica do atual governo fracassou, deixando inflação alta, crescimento baixo e perda de qualidade da gestão das contas públicas. A restauração do tripé é uma forma de restaurar também a confiança na economia — avalia.

Mailson reconhece que uma política fiscal mais austera e a elevação dos juros para combater a inflação no curto prazo encolherá a economia, mas considera que esse processo será revertido com a volta da confiança.

— Pode ter algum impacto sobre o crescimento, mas depois tudo isso vai redundar em mais confiança e mais crescimento — prevê.

Para o economista Antonio Corrêa de Lacerda, professor da PUC-SP, o grande desafio do próximo governo é resgatar um clima de confiança na economia e melhorar a comunicação do governo com os agentes econômicos e com a sociedade para dar maior clareza e transparência às ações e reverter o pessimismo.

— O desafio maior é resgatar um clima de confiança para que haja a retomada dos investimentos — avalia.

Entre as medidas necessárias no curto prazo, ele aponta a correção dos preços administrados (energia, petroleo e transporte públicos). O represamento tem um efeito exagerado nas expectativas de inflação futura, na sua visão. Além disso, Lacerda defende a administração da taxa de câmbio, para evitar a valorização excessiva do real frente ao dólar, e um leve ajuste nas contas públicas.

Assim como Amir Khair, Lacerda é da opinião que a política fiscal deve caminhar para a busca do déficit nominal zero no futuro, ou seja, o equilíbrio das contas já considerando o pagamento dos juros da dívida pública. Mas esse ajuste estrutural só pode ser alcançado, na sua opinião, com uma combinação de superávit primário e redução das despesas com juros. Ele destaca que essas despesas no Brasil estão bem acima dos encargos pagos por países com dívidas semelhantes.

 

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