MORRE ERMÍRIO DE MORAES


Antônio Ermírio de Moraes, empresário e presidente de honra do Grupo Votorantim, morreu na noite deste domingo em sua casa, aos 86 anos, em São Paulo, por insuficiência cardíaca. O corpo está sendo velado no Salão Nobre do Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo, e o cortejo sairá às 16h rumo ao Cemitério do Morumbi.

Enérgico, carrancudo, workaholic, disciplinado. Vários são os adjetivos acumulados pelo empresário. O certo, porém, é que ele nunca será lembrado pelo tamanho de sua fortuna, estimada em R$ 27,1 bilhões, mas por suas posturas, opiniões, tiradas e trocadilhos que, muitas vezes, garantiram destaque às suas críticas em relação aos governos.

Se há injustiças que a vida impôs a Antônio Ermírio, uma delas é que não morreu trabalhando — acometido do Mal de Alzheimer, estava afastado das empresas desde 2006 — e não foi bem-sucedido na carreira política. Bem que tentou. Em 1986, lançou-se candidato ao governo de São Paulo, mas perdeu na reta final.

“Professor vai ter que dar aula”. “Médico vai ter que bater ponto”. “Funcionário público tem que melhorar sua produtividade”. “Empresário vai ter que vender com nota fiscal”. “Na minha gestão, não vai ter essa de atender mal ao povo”. Estes foram alguns dos princípios que Antônio Ermírio defendeu e que, se a princípio lhe garantiu favoritismo, acabou sendo também o motivo da derrota.

— Ele desagradou a todas as corporações. Nas pesquisas qualitativas todo mundo aprovava, mas, nos sindicatos e associações, de empresas e de trabalhadores, a leitura era outra. Orestes Quércia, seu principal adversário, ia lá e dizia “Ele vai acabar com vocês, vai perseguir médicos e professores. Ele é contra funcionário público — conta o sociólogo José Pastore, coordenador do programa de governo, em 1986, e amigo de Antônio Ermírio por mais de 35 anos.

Pastore diz que o amigo não voltou a se candidatar porque se decepcionou com o sistema de trocas de apoio político.

— Pediam a ele secretarias inteiras, de “portas fechadas”. Foi um choque. Ele dizia: “Vou sair da Votorantim para deixar você roubar em meu nome?” — diz o sociólogo, que em junho de 2013 lançou o livro “Antônio Ermírio de Morais – Memórias de um Diário Confidencial”.

Antonio Ermírio de Moraes com Aureliano Chaves, em 1986 – 

No mundo industrial, a marca de Antônio Ermírio foi a do trabalho. Ele iniciou sua carreira no Grupo em 1949, sendo o responsável pela instalação da Companhia Brasileira de Alumínio, inaugurada em 1955.

Começava antes das 7h, terminava depois das 22h. Trabalhava também aos sábados e nas manhãs de domingo, obrigando os executivos do grupo a se revezarem em plantão para abastecê-los de números ou, simplesmente, trocar ideias sobre alguma estratégia.

Ficar doente, para ele, era sinal de fraqueza. Ia trabalhar gripado e, quando isso acontecia, chegava mais cedo, para dar o exemplo. Também não tirava férias. Por várias vezes, anunciou aos amigos que iria dar uma “parada”, descansar e viajar com a mulher, Maria Regina Costa de Moraes. O destino, inevitavelmente, era Bertioga, no litoral paulista. O descanso não passava de um fim de semana.

Numa das poucas vezes que mudou de rumo, foi para Lindóia, no Circuito das Águas. Foi uma viagem que uniu o destino de Antônio Ermírio ao de Maria Regina. Os dois se conheceram num navio, a caminho dos Estados Unidos, onde ela e a mãe iriam passear e a família Morais, ver o filho diplomado em engenharia metalúrgica pela Colorado School of Mines, a mesma universidade onde estudou o pai dele, José Ermírio, e seu irmão mais velho.

“Se eu não tivesse casado com uma heroína, já estaria divorciado”, explicou o empresário numa entrevista a Jô Soares, ao comentar o excesso de dedicação ao trabalho.

— Ele dizia sempre “Regina, um dia vamos tirar um bom tempo para viajar, passear”. Está devendo até hoje — contou Pastore ao GLOBO, numa entrevista concedida antes do lançamento da biografia.

EMPRESÁRIO AJUDOU NAS FINANÇAS DE HOSPITAL

Sempre coube a Regina reunir filhos e netos em almoços, sempre às quartas-feiras, garantindo os laços familiares. Dos nove filhos, o mais parecido com o pai em estilo e perseverança era Carlos Ermírio, que morreu de câncer aos 55 anos, em 2011. Em 2009, também havia morrido outro dos filhos, Mário Ermírio, também de câncer.

Antes da doença de Antônio Ermírio, ele e Pastore se encontravam pelo menos uma vez por semana para almoçar. O empresário gostava de bacalhau e a única bebida alcoólica que se permitia era um cálice de vinho do porto. Ainda jovem, tomou uma dose de uísque e passou mal. Descobriu então ter um único rim e a recomendação foi: muita água e nada de álcool. Seguiu a restrição a vida toda, com a disciplina que lhe era peculiar.

Pastore lembra com carinho dos almoços rápidos. Em geral, não mais que 20 minutos ou meia hora.

— Eu já sabia. Ele sempre dizia: “Pede o meu prato, é muito bom”. Eu já sabia que era para o pedido vir mais rápido e chegava a brincar: “Um dia vamos chegar já almoçados” — relata ao contar sobre os almoços no restaurante do antigo Hotel Ca’D’Oro, na Rua Augusta, que fechou as portas em 2009.

Mas havia dias em que a conversa se estendia. Era quando comparecia o irmão mais velho, José Ermírio, falecido em 2001. Ao contrário de Antônio Ermírio, o empresário tinha tempo para contar histórias deliciosas, falar de celebridades, jogar conversa fora, fazer piada.

Nestas ocasiões, o almoço durava até uma hora e meia. Antonio jamais interromperia José. Nutria por ele admiração e respeito. Há quem diga que a vida inteira estudou e trabalhou muito para, de forma peculiar, competir com José, a quem adorava, incondicionalmente.

Antônio Ermírio era não dava apenas dinheiro, dedicava tempo e trabalho. Foi isso que fez anos a fio no Hospital Beneficência Portuguesa, um dos melhores de São Paulo. Ia lá três vezes por dia e seu grande feito foi desenhar uma engenharia financeira que permitisse à instituição atender pelo SUS, sem acumular prejuízo, dois terços dos pacientes.

Era assim sempre que oferecia ajuda. Uma delas, foi em 2003. Numa manhã de setembro, um sábado, Antônio Ermírio percorreu a pé os 500 metros que separam a Praça Ramos de Azevedo, onde ficava a antiga sede do Grupo Votorantim, até o Largo São Bento. Tocou a campainha do Mosteiro de São Bento e apareceu um frade.

— Por favor, gostaria de falar com o superior, o responsável pelo Mosteiro — pediu.

— O senhor vende alguma coisa? Quer vender o que? — perguntou o frade.

— Vendo cimento, ferro, alumínio. Mas quero apenas falar com ele — explicou-se.

Antonio Ermírio de Moraes com a atriz Lucinha Lins, na estreia da peça Brasil S.A., que ele escreveu – Cristina Granato / Divulgação/11-1-1998

PEÇAS DE TEATRO NO CURRÍCULO

Para a sorte do Colégio e Faculdade São Bento, a conversa inicial não precisou ir adiante. Um superior avistou o famoso empresário e tratou de colocá-lo logo para dentro.

— Entre! Pelo amor de Deus! — convidou.

Da visita inesperada surgiu a ajuda para que o colégio fosse reformado e não fechasse as portas. Antônio Ermírio havia lido nos jornais que o Colégio São Bento, onde estudaram nomes como Franco Montoro e Oswald de Andrade, estava em dificuldades financeiras e fecharia as portas. Em troca do anonimato, propôs ajuda e convenceu outros empresários a aderirem à causa.

Para compensar o que deixou de fazer na política, o empresário extravasou em peças de teatro: Brasil S.A., Acorda Brasil e S.O.S Brasil. Cada fala das personagens no palco, um traço de sua biografia.

Em nota, o Grupo Votorantim lamentou o falecimento:

“Com o falecimento do Dr. Antônio Ermírio de Moraes, o Grupo Votorantim perde um grande líder, que serviu de exemplo e inspiração para seus valores, como ética, respeito e empreendedorismo, e que defendia o papel social da iniciativa privada para a construção de um país melhor e mais justo, com saúde e educação de qualidade para todos”, disse o grupo, que que está presente em mais de 20 países e completou 95 anos de atividade no ano passado, em diversos segmentos industriais como cimentos, metais, siderurgia, energia, celulose, agroindústria e negócios de banco de investimento.

 

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