RELIGIÃO


Há dez anos, um templo africanista do Rio Grande lutava no fórum central de Porto Alegre para reverter uma sentença totalmente preconceituosa, dada na comarca rio-grandina. 31 de outubro de 2003, uma data que deveria entrar para o calendário do Município, marcando a luta contra a intolerância religiosa. A primeira casa rio-grandina que cultuava a religião de matriz africana era fechada por ordem judicial, após denúncia de um vizinho influente na cidade.

Por coincidência, ou não, este mesmo ilê (casa de culto afro) já havia sido perseguido por fundar uma instituição para menores carentes, dando abrigo a crianças órfãs. A Iyalorixá chegou a escutar o seguinte argumento preconceituoso de pessoas influentes no Município: “Casa de macumba não é lugar para instituição de caridade. Vão colocar as crianças nessa tal religião de negros”. Quarenta e cinco crianças eram abrigadas na instituição que mãe Graça de Oxum, iyalorixa do Centro Africanista Oxum  e Xangô, por falta de repasse de verbas do Município, obrigou-se, após não ter mais condições de sustentar de seu próprio bolso, a fechar as portas.   

A guerra contra a intolerância religiosa é mais contra o racismo, por incrível que pareça, do que propriamente religiosa. Ainda encontramos mentes que atribuem ao bem os feitos de brancos e ao mal os de pretos. Creio que essa seja uma batalha infinita, que tem suas raízes lá em 13 de maio de 1888, com a abolição da escravatura. Onde “liberaram” nosso povo, mas não prepararam a sociedade para essa inclusão cultural. Onde apenas se retirou os grilhões dos punhos e pernas dos negros, mas se  deixou os das mentes dos brancos. 

A luta travada em Porto Alegre finalizou com toque de atabaques em frente ao fórum central, após inúmeros pedidos de desculpas pela errônea e preconceituosa sentença atribuída ao Ilé rio-grandino. Passados dez anos, o ilê comemora e todo o povo do axé da cidade também deveria estar festejando, pois não foi apenas esse ilê que ganhou,  mas todos nós! Um julgamento que serviria de jurisprudência para os demais casos, se fosse perdido. 

Qualquer vizinho que se sentisse incomodado poderia fechar um templo, Parabéns ao ilê e em especial à Iyalorixá Graça d’ Oxum e Gissele d’ Ogum.    Parabéns e obrigado por lutarem pela nossa liberdade de crença e culto que, apesar de ser garantida pelo artigo 5º da Constituição brasileira e pelo estatuto da igualdade racial do RS, não é absoluta. Fica um apelo ao povo do axé e demais povos tradicionais nas palavras de Bob Marley: “Unidos venceremos. Divididos, cairemos”.  

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