Baleada com um tiro na nuca


A juíza mineira Glauciene Chaves de Melo, de 42 anos, já vinha recebendo ameaças do ex-marido, o enfermeiro Evanderly de Oliveira Lima. Os dois moravam em Mato Grosso e viviam juntos havia cerca de 10 anos. Em janeiro, dissolveram o contrato de união estável, mas Evanderly, também mineiro, não aceitava a separação. Ela foi sepultada ontem no Cemitério Parque Renascer, em Contagem, na Grande BH. Por conta de seu relacionamento íntimo com a magistrada, o acusado conseguiu entrar armado no fórum da comarca de Alto Taquari (MT), onde Glauciene trabalhava. Ele continua foragido.

De acordo com a Polícia Civil da cidade, uma força-tarefa foi montada junto com a Polícia Militar para rastrear o enfermeiro, utilizando inclusive o apoio de um helicóptero. Ontem, policiais cercaram um sítio da região depois de obter informações de que o suspeito poderia estar escondido na propriedade, mas não encontraram Evanderly. Estradas que levam a fronteiras do estado com Goiás e Mato Grosso do Sul estão sendo vigiadas.

O crime ocorreu na última sexta-feira, depois de uma discussão no gabinete da juíza. Ela foi baleada quando abria a porta para que Evanderly fosse embora. Um policial militar chegou a persegui-lo, mas o ex-marido da magistrada conseguiu escapar por uma área de mata próxima do fórum, onde abandonou a arma que usou, um revólver calibre 38. Segundo familiares, mesmo depois da morte de Glauciene, ele fez ameaças à mãe dela, que vive na capital, por telefone.

O corpo da juíza chegou a Belo Horizonte na tarde de sábado e o velório ocorreu no Funeral House, no Bairro Funcionários, Região Centro-Sul. O cortejo de veículos até o cemitério contou com a escolta da Polícia Militar. Abalados, os parentes não quiseram dar entrevistas. Um filho adotivo da juíza contou que foi ela quem pagou os estudos do ex-marido na área de enfermagem. A magistrada também estaria depositando mensalmente um valor de pensão para Evanderly.

“O que mais esperar depois de uma barbaridade como essa? Esperamos que ele seja pego”, disse uma prima de Glauciene, que começou a trabalhar para o Tribunal de Justiça de Mato Grosso em julho do ano passado. Juiz auxiliar corregedor do órgão, Jorge Luiz Tadeu Rodrigues estava em Belo Horizonte desde quarta-feira para conhecer o sistema carcerário mineiro e estendeu a estada na cidade para prestar solidariedade à família. Ele contou que Glauciene era uma das novas juízas da comarca e que vinha fazendo um ótimo trabalho.

“Soubemos pelas amigas que ela estava sofrendo ameaças, mas ela mesma não imaginava que isso pudesse acontecer. Talvez por isso, e por se tratar de um problema pessoal, ela não tenha nos solicitado segurança. Mas todas as mulheres precisam comunicar às autoridades fatos como esse para evitar o pior”, disse ele. Para o juiz auxiliar corregedor, a morte da magistrada dentro do gabinete dela também vai estimular reflexões sobre a segurança e a proteção de juízes em seu ambiente de trabalho.

O diretor eleitoral da Associação de Magistrados Brasileiros (AMB), Walter Pereira de Souza, também esteve em Belo Horizonte para dar apoio à família de Glauciene. Ele afirma que a segurança nos fóruns não é eficiente e que o Estado é omisso. Segundo ele, principalmente nas comarcas do interior e do Norte do país, não há estrutura para garantir a segurança dos magistrados.

“Essa é uma preocupação da AMB e, por isso, em 2010, criamos uma secretaria de segurança da magistratura. Acompanhamos 170 juízes no país que sofrem ameaças e há relatos de que são mais de 200. A segurança dos fóruns é absolutamente falha. A União precisa tomar a iniciativa, junto com os estados, para implementar práticas de segurança. Principalmente nas comarcas do interior, não há nem detector de metal, fica só um policial cedido para fazer essa proteção”, reclamou.

Em nota, o primeiro ex-marido da magistrada, o empresário Daniel César Coelho Júnior, disse que a família está consternada e agradeceu as manifestações de carinho e solidariedade dos órgãos de Justiça e dos amigos neste momento de dor. “Renovamos a confiança no Poder Judiciário e na misericórdia divina”, afirmou na nota.

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